Hematologia

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Como é a doação de medula óssea: entenda o processo e os passos necessários

Entenda como é feita a doação de medula óssea, dos métodos de coleta (punção e aférese) aos riscos e recuperação. Um gesto que salva vidas.
EHS
Equipe Hospital Samaritano - Geral Atualizado em 20/03/2026
como é a doação de medula ossea

Um gesto que dura poucas horas pode representar uma vida inteira para outra pessoa. Entenda os métodos e a segurança do processo.

Você já imaginou que um simples gesto, que começa com um cadastro rápido em um hemocentro, pode ser a única esperança para alguém que você nunca conheceu?

Para muitos pacientes com leucemia, linfomas e outras doenças do sangue, o transplante de medula óssea é a chance de cura. O medo e a desinformação sobre o processo de doação ainda afastam potenciais heróis.

A doação de medula óssea é um procedimento seguro e sem riscos significativos à saúde do doador, e a informação técnica e clara é essencial para superar o medo e a desinformação sobre o processo.

O que exatamente é a doação de medula óssea?

Primeiramente, é fundamental esclarecer uma confusão comum: medula óssea não é medula espinhal. A medula óssea é um tecido líquido-gelatinoso localizado no interior de ossos como o da bacia. É nela que são produzidas as células-tronco hematopoiéticas, responsáveis por gerar as células sanguíneas: glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas.

A doação consiste na retirada de uma pequena parte dessas células-tronco de um doador saudável para serem infundidas em um paciente. Para o doador, a quantidade retirada não faz falta e o organismo a repõe completamente em cerca de 15 dias, segundo o Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (REDOME).

A doação é um procedimento altamente seguro, com protocolos rigorosos que garantem o bem-estar do doador em todas as etapas.

Quem pode se tornar um herói e doar medula óssea?

Para se cadastrar como doador voluntário, é preciso atender a alguns critérios básicos definidos pelo Ministério da Saúde. O objetivo é garantir a segurança tanto do doador quanto do receptor. Os principais requisitos são:

  • ter entre 18 e 35 anos de idade;

  • estar em bom estado geral de saúde;

  • não ter doenças infecciosas transmissíveis pelo sangue (como HIV ou hepatites);

  • não possuir histórico de doenças neoplásicas (câncer), hematológicas ou autoimunes.

Uma vez cadastrado, seu nome permanece no registro até os 60 anos, idade máxima para efetivar a doação.

Como funciona o passo a passo para se tornar um doador?

O caminho para se tornar um doador é mais simples do que parece e é totalmente coordenado pelo REDOME, órgão ligado ao Instituto Nacional de Câncer (INCA). O processo se divide em algumas etapas-chave:

  1. Cadastro no hemocentro: você procura o hemocentro mais próximo, apresenta um documento de identidade e preenche uma ficha com seus dados.

  2. Coleta da amostra: nesse mesmo dia, é coletada uma pequena amostra de sangue (cerca de 5 ml) para o teste de compatibilidade, conhecido como exame de HLA (Antígenos Leucocitários Humanos).

  3. Inclusão no REDOME: os resultados do seu exame de HLA e seus dados são incluídos no registro nacional. A partir daí, seus dados são cruzados com os de pacientes que aguardam um transplante.

  4. O chamado: se houver um paciente compatível, a equipe do REDOME entrará em contato com você. Serão feitos novos exames de sangue para confirmar a compatibilidade e uma avaliação clínica completa para certificar que você está apto para a doação.

Quais são os métodos de coleta da medula óssea?

Após a confirmação de todos os exames, a doação é agendada. A escolha do método de coleta é uma decisão médica, que considera as necessidades do paciente, mas sempre é discutida com o doador. Em hospitais de ponta, a infraestrutura tecnológica e o cuidado da equipe garantem máximo conforto e segurança em ambos os procedimentos.

Coleta por punção: um procedimento em centro cirúrgico

Este método é uma pequena cirurgia, com duração de aproximadamente 90 minutos. O doador é internado e recebe anestesia (peridural ou geral), o que significa que não sente dor alguma durante o procedimento.

A equipe médica realiza múltiplas punções com agulhas especiais nos ossos posteriores da bacia para aspirar a medula óssea. A quantidade retirada é de cerca de 15% do total, um volume que o corpo repõe rapidamente.

Coleta por aférese: a tecnologia a favor do doador

A aférese é um método mais moderno e menos invasivo. Durante cinco dias antes da doação, o doador recebe uma medicação que estimula a produção e a liberação das células-tronco da medula óssea para a corrente sanguínea.

No dia da coleta, o doador é conectado a uma máquina de aférese através de um acesso venoso em cada braço. O sangue passa pela máquina, que filtra e separa as células-tronco necessárias, devolvendo o restante do sangue ao corpo. O procedimento dura cerca de 3 a 4 horas e não exige internação nem anestesia.

Punção vs. aférese: qual a melhor opção?

Tanto a punção quanto a aférese são métodos altamente seguros e tecnológicos. Eles são desenvolvidos para garantir o conforto do doador, permitindo um breve retorno à rotina diária.

É imprescindível que converse com o seu médico e avalie qual deles é mais viável para o seu caso.

O que acontece após a doação de medula óssea?

A recuperação do doador é rápida e previsível. No caso da punção, pode haver uma dor localizada na região do quadril por alguns dias, facilmente controlada com analgésicos. A maioria dos doadores retoma suas atividades habituais dentro de uma semana.

Para quem doa por aférese, os sintomas semelhantes aos de uma gripe, causados pela medicação, costumam desaparecer um ou dois dias após o procedimento. Eventuais desconfortos físicos são leves e se resolvem naturalmente em até duas semanas após a coleta. Em ambos os casos, a medula óssea do doador se recompõe integralmente em poucas semanas.

Quais são os mitos e verdades sobre a doação?

A falta de informação gera medos que não correspondem à realidade. A doação de medula óssea é um procedimento seguro e sem riscos significativos à saúde. É hora de esclarecer os principais mitos.

Mito: doar medula óssea pode me deixar paraplégico

Falso. Este é o mito mais perigoso e persistente. A coleta é feita no osso da bacia, na região pélvica posterior, muito distante da coluna vertebral e da medula espinhal. Não há qualquer risco de paralisia ou de comprometimento dos movimentos.

Mito: o procedimento é muito doloroso

Falso. A coleta por punção é realizada sob anestesia, portanto, o doador não sente dor. A dor posterior é leve e controlável. Na aférese, o desconforto se assemelha a uma doação de sangue ou plaquetas, sem dor significativa. O procedimento é considerado seguro e indolor, com foco no conforto do doador.

Mito: a doação enfraquece o sistema imunológico do doador

Falso. O volume de células-tronco coletadas é pequeno e o corpo o repõe rapidamente. A doação não causa prejuízos à saúde ou à imunidade do doador a longo prazo. Voluntários avaliam o procedimento como altamente seguro, mesmo com possíveis desconfortos leves e temporários.

Por que a sua doação é tão importante?

Encontrar um doador compatível é um desafio. A chance de compatibilidade entre irmãos é de 25%, mas entre pessoas não aparentadas pode ser de 1 em 100.000, segundo dados do REDOME. Por isso, quanto mais pessoas estiverem cadastradas, maiores são as chances de que um paciente encontre seu par perfeito e tenha a oportunidade de viver.

O seu cadastro pode não ser acionado por anos, ou talvez nunca. Mas, se um dia o telefone tocar, saiba que você pode ser a única pessoa no mundo capaz de salvar aquela vida. É um ato de generosidade anônimo, voluntário e que transforma futuros.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica. Em caso de dúvidas, procure um especialista habilitado.

Bibliografia

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